Miliciano defendeu aliança com traficantes de facção para enfrentar Comando Vermelho:

Miliciano defendeu aliança com traficantes de facção para enfrentar Comando Vermelho: 'TCP não é inimigo nosso'

Fonte: Bandeira da fonte

A Polícia Civil e promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), investigam 20 pessoas que foram denunciadas e tiveram as prisões decretadas por suspeita de integrar núcleos ligados à milícia de Curicica, na Zona Sudoeste do Rio, e ao Terceiro Comando Puro (TCP).
Investigações e uma troca de mensagens encontrada em um celular de um miliciano apontaram uma espécie de aliança entre os paramilitares e traficantes da Vila do João, na Maré, e do Complexo da Pedreira, baseada num pacto de não agressão e cooperação operacional para o combate a facções rivais, especialmente o Comando Vermelho (CV).
Num dos diálogos, o miliciano Yuri Guimarães Soares, o Lirow, fala com um dos chefes da quadrilha, identificado como Osmar Silva de Souza, o Messi ou Novinho, sobre a aliança com o TCP e diz que a facção não é inimiga da milícia.
"…..
Devemos se preocupar com o Comando Vermelho, porque o TCP não é inimigo nosso, pelo contrário, é mais de ajudar a gente, e nunca vai fechar em mancada de ninguém, até porque meu papo é válido também para o mano entendeu, irmão, na humildade, antes do play chegar eu já tava somando, então os amigo coloca na balança, ele falou que a hora que você quiser ir lá pode ir que não mudou nada irmão, entendeu, tmj sempre novinho (sic)", escreveu Lirow, num dos trechos da mensagem.
Sete das 20 pessoas denunciadas estão presas, entre elas dois policiais militares.
Eles são acusados de atuar no fornecimento e na intermediação de armas e munição destinadas aos dois grupos criminosos.
Outras 13 pessoas são consideradas foragidas.
Segundo o MPRJ, Yuri Guimarães Soares, o Lirow, é o elo entre a estrutura paramilitar e integrantes do TCP.
Yuri foi assassinado no último dia 8; não há informação sobre as circunstâncias do crime.
Morador do Complexo da Pedreira, ele integrava a milícia de Curicica, tendo como uma das funções, segundo a denúncia, participar de roubos e adquirir armas usadas nos assaltos praticados por paramilitares.

Os policiais militares Jorge Anastácio Rodrigues Simões, lotado no 4º BPM (São Cristóvão), e Leo Carlos Araújo Santos, do 2º BPM (Botafogo), o Leozin, foram presos nesta quinta-feira.
Ainda conforme o MPRJ, a denúncia destaca o comércio clandestino de armamentos de alto poder ofensivo, incluindo fuzis de calibres 5,56, 7,62 e 223, além de pistolas.
O terceiro preso é Wallace de Oliveira Loredo.
Conhecido pelo apelido de Maquinista, ele é apontado pelo MPRJ como sendo um dos responsáveis por executar roubos de veículos encomendados pela milícia.
Quatro suspeitos já estavam presos por conta de outros crimes.
A investigação teve início após Yuri Guimarães Soares, o Lirow, que atualmente está foragido, ser preso em flagrante pela Polícia Militar com mais duas pessoas, entre elas um policial reformado, no dia 15 de novembro de 2023, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio.
Ele estava com um carro blindado.
No interior do veículo, os policiais militares encontraram dois fuzis, cinco carregadores e munição.
Na mesma ocasião, três telefones celulares foram apreendidos.
Num deles, usado por Lirow, após uma quebra de sigilo decretada pela Justiça, a polícia encontrou conversas que identificavam o envolvimento do suspeito com milicianos de Curicica, em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste, e traficantes do TCP que atuam no Complexo da Pedreira e na Vila do João, no Complexo da Maré.
A polícia apurou, inclusive, que os fuzis apreendidos no carro seriam entregues por Yuri a um paramilitar de Santa Cruz.
Este último teria assumido o comando da quadrilha após a morte de Alan Ribeiro Soares, o Nanan, baleado no dia 4 do mesmo mês e ano durante um confronto com PMs do 27º BPM (Santa Cruz).
A investigação também apurou que Yuri negociava a compra de armas com traficantes do TCP por ter trânsito livre na Pedreira e na Maré.
Segundo as investigações, a milícia de Curicica possui estrutura hierarquizada, com divisão de tarefas.
André Costa Bastos, o Boto ou Redbull, mesmo preso no sistema penitenciário federal, seria o responsável pelo comando estratégico, enquanto Osmar Silva de Souza, o Messi ou Novinho, exerceria a chefia operacional do grupo.
Atualmente, ele também está preso por conta de outros crimes.
A organização teria como fontes de financiamento a cobrança de valores extorsivos de moradores e comerciantes, além de roubos de veículos e cargas em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste, e regiões próximas.
No telefone de Yuri Guimarães Soares, os policiais encontraram trocas de mensagens entre ele e Messi, um dos chefes do grupo de Boto.
Messi é apontado na investigação como o gestor do pagamento de seus subordinados, sendo responsável ainda pela compra de armamentos e por autorizar e encomendar os roubos de veículos na região.
Na conversa com Novinho, Yuri fala sobre um menor interessado em entrar para a milícia.
"Aí mano, tem um amigo acho que você tá até ligado nele, cria da Taquara, roubava com a gente na época dos caminhão (sic), um branquinho.
Mlk dirige, vai na pista, inteligente, né heresia não, é mlk bom, menor de confiança, vai ser pai de novo aí tava precisando dar uma somada, aí ele perguntou se tinha como desenrolar pra ele fechar com a gente na firma Tlgd? Menor conhece tudo em Jacarepaguá, cria da área, aí se tu quiser mano marca uma entrevista com ele pra tu conhecer ele trocar um papo Tlgd, quiser botar ele no recolhe com os amigos pra dar uma recolhida, amigo é esperto né burro não, se puder dar essa oportunidade pra ele mano dar uma somada com a gente vai deixar forte papo reto (sic)".
Messi respondeu dizendo que Yuri poderia enviar o adolescente para uma conversa: "Lembro dele, não.
Manda aí (sic)", escreveu.
Alianças com pacto de não agressão envolvendo o TCP e a milícia também acontecem em outros pontos do Rio.
A polícia investiga denúncias que circulam nas redes sociais dando conta de que milicianos contariam com apoio de traficantes do TCP em Rio das Pedras, em disputas territoriais envolvendo o CV.
Também há presença de paramilitares e de traficantes do Terceiro Comando Puro em ruas do Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste.
De acordo com investigações, o Comando Vermelho também tem tentado o controle de territórios na comunidade citada.
A denúncia que aponta 20 suspeitos de integrar núcleos da milícia e do TCP foi recebida pelo juízo da 3ª Vara Especializada em Organização Criminosa da Capital.
O documento atribui aos denunciados os crimes de constituição de milícia privada, associação para o tráfico de drogas com emprego de arma de fogo e comércio ilegal de armas e munição de uso restrito.
A operação teve acompanhamento da Corregedoria-Geral da Polícia Militar.
Segundo a corporação, os policiais presos serão encaminhados à Unidade Prisional da PM, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, onde permanecerão à disposição da Justiça.
A Polícia Militar afirmou que os agentes serão submetidos a Procedimentos Administrativos Disciplinares (PADs), cujo objetivo é avaliar a permanência dos acusados nos quadros da corporação.
"O comando da corporação reitera que não tolera desvios de conduta ou o cometimento de crimes por seus integrantes, adotando as medidas administrativas e disciplinares cabíveis e punindo com rigor os envolvidos sempre que as irregularidades forem devidamente constatadas", destacou a PM em nota.