Novo tipo de placa cerebral pode explicar limite dos remédios contra Alzheimer - QTU Questões do Universo

Novo tipo de placa cerebral pode explicar limite dos remédios contra Alzheimer

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Acúmulo de mitocôndrias em neurônios foi identificado como nova característica do Alzheimer
Callista Images via Getty Images
Um grupo de pesquisadores do Instituto Nacional do Envelhecimento (NIA), ligado aos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, e da Universidade de Minnesota identificou uma estrutura até então não descrita no cérebro de pacientes com Alzheimer.
São aglomerados de mitocôndrias defeituosas, batizados de placas mitocondriais, encontrados tanto em camundongos geneticamente modificados quanto em tecido cerebral humano coletado após a morte.
O trabalho foi publicado na revista Nature Neuroscience.
O achado interessa muito além do laboratório.
A demência atinge 57 milhões de pessoas no mundo e custa cerca de US$ 1,3 trilhão (R$ 6,6 trilhões) por ano à economia global, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Cerca de metade dessa conta vem do cuidado não remunerado prestado por familiares.
O Alzheimer responde por 60% a 70% dos casos.
Uma coleta de lixo que trava no meio do caminho
Mitocôndrias são as estruturas que geram energia dentro das células.
Quando envelhecem ou se danificam, precisam ser recicladas por um processo chamado mitofagia, em que a célula empacota o material defeituoso e o entrega aos lisossomos, organelas que funcionam como trituradores químicos.
Para observar esse processo funcionando em tempo real, os pesquisadores usaram camundongos modificados para expressar uma proteína fluorescente derivada de corais, a Keima, que muda de cor conforme a acidez do ambiente.
Mitocôndrias em condição neutra brilham em verde; as que já foram capturadas em compartimentos ácidos, prontas para degradação, aparecem em laranja.
O que a técnica mostrou foi um processo interrompido pela metade.
O acúmulo anormal de mitocôndrias atrai os lisossomos, mas a degradação não se completa porque a própria função lisossomal está comprometida.
O resultado é um depósito misto de mitocôndrias neutras e ácidas que se compacta em uma massa visível ao microscópio.
Segundo o estudo, esses depósitos não se formam no corpo do neurônio, e sim nos neuritos, os prolongamentos que enviam e recebem os sinais elétricos e químicos responsáveis por praticamente todas as funções cerebrais.
Nos camundongos, os primeiros aglomerados apareceram por volta das 15 semanas de vida, equivalente ao início da idade adulta humana, e se tornaram abundantes entre 50 e 60 semanas.
Em cérebros saudáveis de idade equivalente, camundongos ou humanos, as placas mitocondriais não foram encontradas.
Por que a indústria farmacêutica deveria prestar atenção
Há três décadas, o desenvolvimento de medicamentos para Alzheimer gira em torno da hipótese amiloide, segundo a qual a doença é impulsionada pelo acúmulo da proteína beta-amiloide entre os neurônios.
Os dois remédios modificadores de doença hoje no mercado seguem essa lógica: o lecanemabe, da japonesa Eisai em parceria com a americana Biogen, e o donanemabe, da Eli Lilly.
O mercado é real, ainda que menor do que se previa.
O lecanemabe faturou US$ 168 milhões (R$ 851 milhões) no primeiro trimestre de 2026, alta de 74% na comparação anual, enquanto o donanemabe somou US$ 124 milhões (R$ 628 milhões) no mesmo período.
A Eisai projeta receita de 143,5 bilhões de ienes, cerca de US$ 905 milhões (R$ 4,5 bilhões), para o ano fiscal de 2026.
O problema é que limpar amiloide não tem se traduzido em interromper a perda cognitiva.
Os autores do estudo lembram que pacientes imunizados contra a beta-amiloide tiveram as placas removidas com sucesso, mas seguiram apresentando neurodegeneração.
As placas mitocondriais oferecem uma explicação possível: elas se acumulam justamente na parte do neurônio que transmite sinais e, embora frequentemente se misturem às placas amiloides, também surgem de forma independente em fases iniciais da doença.
"Diferentemente das placas amiloides encontradas fora das células cerebrais, essas placas parecem afetar diretamente os neurônios, o que as torna um potencial novo alvo para tratamentos", afirmou Xiuli Dan, professora assistente de pesquisa e primeira autora do artigo.
O Brasil nessa conta
Mais de 1 milhão de brasileiros convivem com o Alzheimer, segundo o Ministério da Saúde.
O lecanemabe teve registro aprovado pela Anvisa em 22 de dezembro de 2025 e chegou às farmácias em junho, indicado apenas para pacientes em estágio inicial da doença.
O preço definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos é de R$ 8.108,94 por mês de tratamento para um paciente de 70 quilos, sem impostos.
Com a alíquota de ICMS de 18%, praticada na maioria dos estados, o valor chega a R$ 11.075,62.
O geriatra José Carlos Moriguti observou em entrevista ao Jornal da USP que o SUS e os planos de saúde ainda estão distantes de incorporar o medicamento, e que o tratamento exige uma infraestrutura diagnóstica cara, com tomografia por emissão de pósitrons, ressonância magnética, exames de biomarcadores e testes genéticos.
Os próximos passos anunciados pela equipe são identificar biomarcadores capazes de detectar as placas mitocondriais em pacientes vivos e fazer a triagem de compostos que impeçam sua formação.
Nenhum dos dois existe hoje.
No artigo, os pesquisadores escrevem que tratamentos combinados, mirando ao mesmo tempo as placas amiloides e as mitocondriais, são promissores para gerar melhores resultados terapêuticos no Alzheimer.
Trabalhos anteriores do mesmo grupo já haviam mostrado que estimular a mitofagia em camundongos modelo da doença trouxe ganhos cognitivos.

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