O Pará registrou 238 ataques de cães entre janeiro e julho de 2026, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup).
Em todo o ano de 2025, foram contabilizadas 281 ocorrências no estado.
A Segup informou ainda que não possui registros específicos sobre a raça dos cães envolvidos nos ataques nem sobre a ocorrência de mortes relacionadas a esses casos.
O órgão também destacou que não elabora rankings por municípios ou regiões, para evitar a estigmatização da população e das localidades onde os casos são registrados.
Um dos episódios mais recentes ocorreu no último domingo (2), no bairro Jardim Planalto, no Complexo VS10, em Parauapebas, no sudeste do Pará.
Uma mulher foi atacada por um cachorro da raça pitbull enquanto se preparava para sair de motocicleta.
Imagens que circulam nas redes sociais mostram o momento em que o animal avança e morde o braço da vítima, no momento em que ela se preparava para sair em uma motocicleta.
Após conseguir se desvencilhar do cachorro, a mulher corre e se abriga em uma residência próxima.
Em outro vídeo, moradores aparecem segurando o portão para impedir que o animal invada o imóvel, enquanto ele continua tentando atacar, aumentando a tensão entre as pessoas que acompanhavam a cena.
A vítima sofreu ferimentos no braço, na mão e na perna, com marcas profundas de mordidas e sangramento.
Em entrevista concedida nesta quinta-feira (6) à reportagem do Grupo Liberal, a vítima, Ingrid Costa, contou que havia acabado de sair da casa da cabeleireira quando foi surpreendida pelo ataque.
Segundo ela, o cachorro estava solto porque o portão da residência vizinha permanecia aberto.
“Quando eu fui pegar minha moto, o cachorro estava do lado de fora, em pé, olhando para mim.
Eu simplesmente peguei minha moto e, quando virei para subir nela, ele avançou.
Ele ia pegar meu pescoço, mas eu coloquei a mão na frente.
Foi aí que ele começou a me puxar, rasgou meu braço e minha mão.
Estou com a mão toda furada e o braço machucado”, relatou.
Ingrid afirmou que um homem que presenciou a situação conseguiu afastar o cachorro utilizando um facão e a colocou para dentro de uma casa.
Mesmo assim, o pitbull voltou a atacá-la.
“O rapaz me colocou para dentro, mas ele ainda voltou e mordeu minha perna.
O cachorro ficou muito agressivo.
Depois fecharam o portão, mas ele continuou batendo nele tentando entrar”, disse.
A vítima também criticou a postura da tutora do animal.
Segundo Ingrid, ela não recebeu ajuda imediata após o ataque e o socorro foi prestado por uma amiga e pela mãe.
“Quem me socorreu foi minha amiga e minha mãe.
A dona do cachorro não me prestou socorro”, denunciou.
De acordo com Ingrid, após a repercussão do caso nas redes sociais, a proprietária do pitbull entrou em contato pedindo que ela não registrasse denúncia.
“Ela pediu para eu não denunciar, mas eu tive que fazer a denúncia.
Até agora, acredito que ela nem foi intimada”, contou.
A vítima afirma ainda que recebeu apenas R$ 250 para custear o tratamento, valor que considera insuficiente diante das despesas com medicamentos e curativos.
“Ela só me mandou R$ 250.
Isso não dá para comprar tudo o que preciso.
Estou gastando com remédios, ataduras e curativos.
O médico disse que eu não posso deixar os ferimentos descobertos.
Minha mãe pediu ajuda para comprar mais material, mas ela ficou inventando desculpas.
O certo seria ela me ajudar até eu me recuperar, e isso não está acontecendo”, desabafou.
Projeto de lei propõe restringir criação e comercialização de pitbulls
Casos como o ocorrido em Parauapebas chamam atenção para o Projeto de Lei nº 1.265/2024, que tramita na Câmara dos Deputados e propõe regras mais rígidas para cães da raça pitbull em todo o país.
Segundo a advogada Paula Vianna, especialista em Direito Ambiental, o projeto não determina o recolhimento ou a eutanásia dos animais já existentes, mas pretende impedir que novos exemplares ingressem no mercado.
“O projeto pretende instituir um regime nacional de restrição para cães da raça pitbull, proibindo a comercialização, a reprodução destinada à criação e a importação desses animais.
Além disso, prevê o registro obrigatório dos cães já existentes, a castração em até 180 dias e regras específicas para circulação em locais públicos”, explicou.
A especialista ressalta que a proposta ainda não virou lei.
“O texto foi apresentado em abril de 2024, foi apensado ao Projeto de Lei nº 2.376/2003 e atualmente está pronto para pauta no Plenário da Câmara dos Deputados.
Isso significa que ainda poderá sofrer alterações antes de uma eventual aprovação”, explicou.
Caso o projeto seja aprovado na forma atual, os tutores que já possuem pitbulls poderão continuar com os animais, mas deverão cumprir uma série de obrigações.
“A proposta não proíbe que quem já possui um pitbull permaneça com ele.
No entanto, o tutor deverá registrar o animal, providenciar a castração, obedecer às regras de circulação, utilizar equipamentos de contenção, como guia e, conforme a regulamentação, focinheira, além de manter os dados cadastrais atualizados", afirmou.
A advogada destaca que, mesmo sem uma lei federal específica sobre pitbulls, a legislação brasileira já responsabiliza os donos de animais por danos causados a terceiros.
“O Código Civil estabelece que o dono ou detentor do animal deve indenizar os prejuízos causados, salvo se comprovar culpa exclusiva da vítima ou força maior.
Já na esfera penal, a omissão de cautela na guarda de animal perigoso pode configurar contravenção penal e, dependendo das consequências, o tutor também poderá responder por lesão corporal culposa ou até homicídio culposo”, alertou.
Segundo Paula Vianna, a vítima também pode buscar reparação pelos prejuízos sofridos.
“É possível pleitear indenização por despesas médicas, tratamentos futuros, danos morais, danos estéticos, lucros cessantes e outros prejuízos decorrentes do ataque.
A responsabilização criminal dependerá da comprovação de negligência, imprudência ou imperícia por parte do tutor”, pontuou.
A especialista pondera, porém, que restringir apenas uma raça pode não ser suficiente para reduzir os ataques.
“A proposta tem o mérito de chamar atenção para a necessidade da guarda responsável, mas ataques de cães são fenômenos multifatoriais.
Uma legislação baseada em risco concreto, comportamento do animal e responsabilidade do tutor, acompanhada de cadastro e fiscalização efetiva, tende a ser mais equilibrada e tecnicamente defensável do que uma proibição fundada exclusivamente na raça”, observou.
Ciência aponta que agressividade depende de diversos fatores
O médico-veterinário Manoel Damasceno Neto, professor e doutor em Ciência Animal, afirma que as evidências científicas atuais não permitem concluir que cães do tipo pitbull sejam naturalmente mais agressivos do que outras raças.
“As evidências científicas atuais demonstram que a agressividade canina possui origem multifatorial e resulta da interação entre fatores genéticos, ambientais e de manejo.
Não há comprovação científica de que todos os cães do tipo pit bull sejam naturalmente mais agressivos do que cães de outras raças”, explicou.
Segundo ele, o próprio termo “pitbull” costuma ser utilizado para identificar diferentes cães com características físicas semelhantes, dificultando até mesmo a correta identificação da raça em muitos registros de ataques.
O especialista explica que a genética influencia algumas características comportamentais, mas a criação do animal exerce papel decisivo.
“A socialização precoce, o manejo diário, o treinamento e as experiências vividas exercem papel fundamental na manifestação dos comportamentos.
Cães criados em ambiente equilibrado e treinados por métodos baseados em reforço positivo apresentam menor probabilidade de desenvolver agressividade do que animais submetidos ao isolamento, maus-tratos ou métodos coercitivos”, comentou.
Para Manoel Damasceno Neto, os ataques geralmente resultam da combinação de diversos fatores.
“Entre os principais desencadeantes estão medo, dor, proteção territorial, defesa de alimento ou do tutor, manejo inadequado, falta de socialização, contenção física inadequada, maus-tratos, estresse crônico e falhas na guarda responsável.
Na maioria dos acidentes graves coexistem múltiplos fatores de risco”, alertou.
Ele destaca que, antes de atacar, os cães costumam emitir sinais claros de desconforto.
“Postura corporal rígida, olhar fixo, orelhas posicionadas para frente ou para trás, cauda rígida, pelos eriçados, exposição dos dentes e rosnados são alguns dos sinais.
Há ainda manifestações mais discretas, como lambedura dos lábios e bocejos repetitivos.
Esses comportamentos representam formas de comunicação do animal e devem ser respeitados”, observou.
Guarda responsável é a principal forma de prevenção
Segundo o veterinário, a prevenção depende principalmente da responsabilidade dos tutores.
“A guarda responsável inclui identificação adequada, vacinação, acompanhamento veterinário, socialização precoce, treinamento baseado em reforço positivo, instalações seguras, uso de guia resistente em locais públicos e supervisão constante.
O comportamento individual, o histórico de agressividade e a capacidade de controle do tutor devem ser considerados de forma mais relevante do que a raça isoladamente”, pontuou.
Sobre o uso obrigatório de focinheira, previsto no projeto de lei, Manoel Damasceno Neto afirma que a medida é importante, mas não resolve o problema sozinha.
“A focinheira representa uma importante medida preventiva para reduzir o risco de mordidas, especialmente em cães com histórico de agressividade.
Entretanto, ela não substitui treinamento, manejo adequado ou acompanhamento veterinário”, orientou.
Ele também esclarece que a castração não deve ser vista como solução para prevenir ataques.
“A esterilização pode reduzir alguns comportamentos relacionados aos hormônios sexuais, mas não constitui tratamento eficaz para agressividade motivada por medo, ansiedade, dor ou territorialidade.
Seu principal benefício está no controle populacional e na redução da reprodução indiscriminada”, alertou.
Na avaliação do especialista, ainda não há evidências científicas de que a proibição da reprodução e da comercialização de pitbulls, por si só, reduziria significativamente os ataques.
“A literatura científica não demonstra que legislações baseadas exclusivamente na raça sejam as mais eficazes.
Políticas voltadas à guarda responsável, educação dos tutores, identificação obrigatória dos animais, fiscalização da criação, controle de cães errantes e responsabilização dos proprietários apresentam maior potencial preventivo”, avaliou.
O veterinário também orienta como agir diante de um cão agressivo.
“Ao encontrar um cão em atitude ameaçadora, a orientação é manter a calma, evitar correr, gritar ou fazer movimentos bruscos.
O ideal é não encarar diretamente o animal, afastar-se lentamente e utilizar algum objeto como barreira física”, recomendou.
Após um ataque, ele recomenda procurar atendimento médico imediatamente.
“A vítima deve lavar imediatamente o ferimento com água corrente e sabão e buscar atendimento médico para avaliação da necessidade de vacinação contra raiva, tétano, antibioticoterapia e tratamento da lesão.
Paralelamente, o animal deve ser submetido à avaliação médico-veterinária e permanecer sob observação sanitária quando indicado pelas autoridades”, apontou.
