O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou nesta terça-feira que a República Islâmica está pronta para retornar aos termos do memorando de entendimento assinado com os EUA — que suspendeu as hostilidades entre os dois países em junho e estabeleceu um processo diplomático — se Washington optar por retomar a via negociada.
A promessa de "reciprocidade" a um movimento americano foi feita durante a reunião de cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), no Quirguistão, que reúne líderes não-ocidentais, como o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin — que analistas apontam como um fórum ao qual os iranianos pretendem utilizar para contrapor a nova campanha de sanções econômicas anunciada pelos EUA.
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— Afirmo explicitamente que, se os EUA retornarem aos seus compromissos previstos no referido memorando de entendimento, a República Islâmica do Irã tomará imediatamente medidas recíprocas — afirmou Pezeshkian nesta segunda-feira, em uma declaração que acompanha a mensagem levada pelo ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, que falou em uma "volta aos trilhos" em caso de os americanos retomarem ao compromisso "que o presidente deles assinou".
Apesar do novo ataque americano no começo desta semana e da promessa de um isolamento ainda maior por parte dos EUA — por meio de uma política de sanções que o secretário do Departamento do Tesouro Scott Bessent tenta emplacar em uma reunião do G20 em paralelo à cúpula da OCX — a diplomacia pública iraniana indica que não será fácil para o governo do presidente americano, Donald Trump, forçar Teerã a fazer concessões.
Em seu discurso no evento, Pezeshkian disse que a Organização para a Cooperação de Xangai deveria criar seu próprio banco e uma agência de crédito à exportação.
Em conversa com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e do Paquistão, Shehbaz Sharif, ouviu sinalizações parecidas sobre o desejo de fortalecimento de relações "em diversos setores".
O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, pediu uma maior cooperação "em vários campos comerciais e econômicos", enquanto o líder do Quirguistão, Sadyr Japarov, propôs que Teerã investisse em uma refinaria de petróleo na Ásia Central.
Nenhum acordo concreto foi anunciado, mas as sinalizações servem como um termômetro inicial à adesão do restante do mundo à "maior ofensiva financeira já mobilizada", segundo Bessent anunciou ao Financial Times.
Analistas especularam após o anúncio que a campanha atual só teria efeitos para além de outros pacotes de sanções se o isolamento fosse hermético.
Para isso, alguns argumentaram, seria necessária a adesão da China, principal compradora do petróleo iraniano — algo que o secretário americano tentou minimizar em entrevistas antes do G20.
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As autoridades de Teerã têm alternado o discurso sobre a campanha americana.
Ao público interno, Pezeshkian admitiu que o país enfrenta "muitas dificuldades", prometendo que o governo tomaria as medidas necessárias para mitigar os efeitos sobre a população — em paralelo, a liderança suprema, aiatolá Mojtaba Khamenei, reforçou o controle sobre os organismos de repressão social, a fim de evitar distúrbios sociais.
Para fora, Teerã prometeu retaliação contra quem aderisse à campanha de sanções de Washington, afirmando que seria tratado "como inimigo".
Em Bishkek, Pezeshkian ainda deve se reunir com Putin e Xi, em uma estratégia de usar a proximidade com Rússia e China como contraponto geopolítico aos interesses americanos.
O objetivo remonta o sentido inaugural da Organização para a Cooperação de Xangai, criada no início dos anos 2000 para contrapor Washington.
A presença de Pezeshkian na cúpula "carrega uma mensagem política clara: o Irã está fortalecendo seus laços com estruturas asiáticas e eurasiáticas e seus esforços para enfrentar a pressão econômica", escreveu o jornal iraniano Shargh na terça-feira.
"Em condições de pressão máxima, Teerã está tentando se estabelecer como um ator indispensável na rede econômica, de trânsito e geopolítica da Eurásia".
Outras lideranças do bloco já demonstraram resistência à ideia de isolar o Irã.
Além de Pequim, que emitiu um posicionamento público dizendo que salvaguardaria seus interesses e condenou decisões unilaterais americanas, Paquistão e Turquia reagiram contra a ideia de encerrar as relações comerciais e empresariais com o Irã, ou simplesmente ignoraram as ameaças.
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Confluência de interesses
Enquanto Teerã tenta assegurar aliados, a necessidade de se contrapor aos EUA se alinha a interesses chineses.
Xi chegou à Ásia Central para transmitir a mensagem de que tem amigos e influência e está preparada para ajudar ser a fonte de estabilidade e defensora da "ordem mundial multipolar ordenada" — uma oposição à ordem mundial centrada nos EUA.
Analistas apontam que Pequim está usando a solidariedade com a Rússia e o Irã, países em guerra com o Ocidente, para projetar influência, o que ofereceria a Xi uma margem de manobra enquanto se prepara para uma cúpula com Trump no fim do mês — ao passo que o presidente americano aumenta a pressão sob aliados.
— A teoria chinesa para justificar a transformação da ordem política internacional na direção que considera preferível é acumular apoio da 'maioria global' — disse Ryan Hass, ex-diplomata de carreira e ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, atualmente no Brookings Institution.
— É por isso que a participação de Xi nesses agrupamentos é tão importante para Pequim.
Isso constrói uma narrativa em torno do avanço da China na obtenção de apoio para desempenhar um papel mais central no cenário mundial.
(Com Bloomberg, AFP e NYT)
