Há quatro meses, a Holanda aprovou o sistema “Full Self-Driving” (FSD) da Tesla e, desde então, vem defendendo sua adoção em toda a União Europeia (UE).
Mas o órgão regulador de trânsito holandês RDW não informa ao público por que concluiu que o sistema de assistência ao motorista é seguro nem como avaliou a tecnologia, que há anos é objeto de investigações regulatórias e processos judiciais nos Estados Unidos (EUA).
Divulgar esses detalhes violaria os segredos comerciais da Tesla, informou o regulador à Reuters, repetindo o argumento da própria montadora em seus pedidos de confidencialidade.
Desde o fim de 2024, a Tesla vem pressionando o RDW para manter em sigilo a documentação sobre a avaliação de segurança do FSD, segundo uma troca de e-mails entre a empresa e o regulador holandês, obtida pela Reuters por meio de um pedido com base na legislação de acesso à informação.
A Tesla considera a aprovação do FSD fundamental para impulsionar as vendas na Europa, onde tenta recuperar a participação de mercado perdida nos últimos anos e enfrenta forte concorrência dos veículos elétricos chineses.
Historicamente, os reguladores europeus têm sido mais cautelosos do que os norte-americanos em relação à condução automatizada, exigindo que as montadoras obtenham aprovação antes de disponibilizar sistemas de assistência ao motorista como o FSD.
O diretor-presidente da Tesla, Elon Musk, afirma repetidamente que o FSD, que exige que um motorista humano mantenha atenção constante, em breve será totalmente autônomo.
Uma investigação da Reuters publicada em maio constatou que as estatísticas de segurança do FSD divulgadas pela própria Tesla são altamente exageradas e que a empresa ainda está longe de lançar uma tecnologia de direção autônoma em larga escala.
A Reuters informou em junho que a Tesla compartilhou dados inflados sobre a segurança do FSD nos Estados Unidos com diversos reguladores da União Europeia, incluindo o RDW, durante o processo de obtenção da aprovação.
O RDW afirmou que não se baseou nas estatísticas da Tesla e realizou seus próprios “testes extensivos” em pistas fechadas e vias públicas, sob diferentes condições, sem detalhar como mediu o desempenho ou a segurança do sistema.
Especialistas europeus em legislação de segurança veicular afirmam que o RDW está retendo informações em excesso sob o argumento de proteger segredos comerciais, potencialmente em detrimento da segurança pública.
Detalhes sobre os testes realizados pelo RDW e o desempenho da Tesla são de amplo interesse público, afirmou Oliver Carsten, professor de segurança no transporte da Universidade de Leeds, que participou da elaboração das normas europeias para condução automatizada.
“Não vejo motivo para que isso não possa ser público”, disse.
Frank Mutze, gerente de políticas e projetos do Conselho Europeu de Segurança nos Transportes, afirmou que o público acaba sendo obrigado a confiar que as autoridades “fizeram seu trabalho, o que obviamente não é suficiente para nós”.
O RDW se recusou a explicar como avaliou os testes de segurança do FSD ou a divulgar documentos relacionados aos testes, citando uma “obrigação de proteger informações específicas dos fabricantes”.
O órgão não explicou de que forma detalhes sobre seus testes ou suas conclusões a respeito do desempenho do sistema poderiam revelar informações comercialmente sensíveis.
A Tesla não respondeu aos pedidos de comentário.
Tesla exige sigilo
O RDW anunciou em abril que concluiu que o FSD é “mais seguro do que outros sistemas de assistência ao motorista”.
Em junho, afirmou que o sistema é “pelo menos tão seguro quanto outros sistemas de assistência ao motorista”.
O órgão, porém, não apresentou dados ou evidências que sustentassem essas afirmações.
O RDW agora busca a aprovação do FSD pela União Europeia, o que exige voto favorável de representantes de 55% dos Estados-membros que representem 65% da população do bloco.
A votação pode ocorrer em outubro.
A Tesla fez do sigilo uma prioridade durante todo o processo de aprovação, segundo a correspondência entre a montadora e o regulador desde o fim de 2024.
Em um exemplo de abril de 2025, um representante da Tesla buscou confirmar que o RDW “jamais” divulgaria determinado documento e perguntou como garantiria que ele fosse “mantido fora do alcance do público”.
Segundo o funcionário, a Tesla não poderia fornecer mais informações ao RDW “até que essa questão fosse esclarecida”.
O RDW respondeu que a divulgação com base na legislação de acesso à informação não deveria ser um problema porque “os fabricantes sempre têm a opção de solicitar uma exceção para a divulgação de determinadas informações”.
O regulador afirmou à Reuters que não reteve informações a pedido da Tesla, mas que toma suas próprias decisões sobre como proteger os segredos comerciais das empresas.
A Tesla tem um histórico de tentar impedir que informações fornecidas a reguladores se tornem públicas.
Nos Estados Unidos, a empresa solicita às autoridades federais de segurança que ocultem até mesmo detalhes básicos sobre cada acidente envolvendo seus sistemas de assistência ao motorista.
Outros reguladores europeus, que estão recebendo do RDW parte das informações sobre os testes do FSD, adotaram posição semelhante quanto à confidencialidade.
Reguladores de seis países europeus, incluindo Alemanha, Noruega e Dinamarca, disseram à Reuters que não poderiam divulgar dados sobre os testes ou o desempenho do FSD devido a preocupações relacionadas a segredos comerciais.
A Administração Pública de Estradas da Noruega afirmou ter analisado os dados fornecidos pelos holandeses sobre sua avaliação do FSD e disse que essas informações “não são as mesmas que a Tesla publica em seu site”, referindo-se às estatísticas infladas de segurança examinadas pela investigação da Reuters.
Segundo a agência norueguesa, as estatísticas da Tesla afirmam que os veículos são mais seguros do que indicam os dados analisados pelos reguladores europeus.
Essa informação foi repassada a motoristas em e-mails analisados pela Reuters.
Especialistas europeus em segurança no trânsito afirmaram que a insistência dos reguladores na confidencialidade é especialmente preocupante diante da forma pouco convencional pela qual a Tesla busca a aprovação do FSD.
A empresa está solicitando uma autorização especial que a isente das normas europeias para veículos automotores, que atualmente permitem que sistemas automatizados sem uso das mãos, como o FSD, operem apenas em rodovias e proíbem seu uso em vias urbanas mais congestionadas.
Alguns reguladores já deram indícios de suas preocupações.
No mês passado, o ministro dos Transportes da França afirmou que o país não aprovará o FSD em sua forma atual devido a preocupações com excesso de velocidade e com a insuficiência da tecnologia para garantir que o motorista humano permaneça atento.
A Agência Finlandesa de Transportes e Comunicações afirmou que o sistema “frequentemente toma decisões mais seguras do que um motorista humano”, mas também destacou preocupações quanto ao funcionamento em estradas íngremes e sinuosas e questionou se os motoristas conseguiriam retomar o controle do veículo com segurança caso o sistema cometesse erros repentinos.
Michel Euler/AP
