“Aprenda a fabricar e produzir seu próprio azougue (mercúrio líquido) para extração de metais preciosos.
Segredo revelado só aqui”.
Mensagens como essa no Facebook e no Instagram motivaram uma ação do Ministério Público Federal contra a Meta, dona das plataformas, para a moderação e remoção de conteúdos de apologia ao garimpo ilegal.
Investigações mostram nas redes sociais promoção, divulgação, recrutamento, venda de máquinas e o acompanhamento da fiscalização do garimpo na Amazônia, atividade criminosa que ocupa quase 100 mil hectares de áreas protegidas, segundo o Greenpeace.
Todos os acampamentos de garimpo irregular, mesmo nas áreas mais remotas, têm atualmente sinal de internet, principalmente após o advento da Starlink, segundo o procurador da República André Luiz Porreca, responsável pela ação contra a Meta.
A conexão permite disparar alertas da aproximação de equipes do Ibama e da polícia e a promoção de um estilo de vida que promete ganhos irreais a pessoas em situação de vulnerabilidade.
— Há um “garimpo ostentação”.
Existem verdadeiros influenciadores digitais que mostram essa atividade como altamente lucrativa, o que não é verdade — afirma o procurador titular do Segundo Ofício da Amazônia Ocidental, unidade especializada no combate a crimes socioambientais.
Porreca é idealizador do projeto Rede Sem Mercúrio, responsável pela ação que resultou na proibição de mercúrio em garimpos autorizados e por procedimentos contra a venda do metal em plataformas virtuais:
— O rendimento médio desses operadores do garimpo de ouro é de 3% a 7% do que é extraído.
Na comunidade virtual do garimpo, o conteúdo se divide.
Há o de recrutamento, com anúncio de vagas de trabalho; o “blogueiro do garimpo”, que faz o “garimpo ostentação”; o movimento político que tenta legalizar a atividade com o discurso; a venda de insumos e serviços; e o acompanhamento das ações de fiscalização.
O MPF compilou centenas de publicações no Facebook e no Instagram entre 2020 e 2026 como exemplos de apologia e incitação ao crime.
Há grupos, contas pessoais e páginas que funcionam como canais de uma cultura do garimpo, com dezenas de milhares de seguidores, como os Fanáticos por Garimpo” (37,7 mil seguidores), Tudo sobre Garimpo (27,9 mil seguidores) e Ouro do Sonhador (76 mil).
Há comunidades mais específicas, como o Grupo de Cozinheiras de Garimpo.
Promessas de ganho
Imagens de garimpos ilegais, com máquinas, balsas, dragas, aviões e pistas de pouso clandestinas, se multiplicam nas redes.
Elas sustentam uma propaganda de oportunidade econômica, prometendo ganhos de R$ 1 mil a R$ 2 mil por dia, com a exibição de pepitas, ouro extraído e dinheiro em espécie.
Nos comentários, é comum encontrar pessoas pedindo vagas.
“A comunicação instantânea entre garimpeiros e influenciadores digitais amplia o recrutamento de mão de obra, facilita a articulação logística da atividade clandestina, divulga técnicas, equipamentos e rotas, e dificulta as operações de fiscalização, cuja aproximação passa a ser anunciada em tempo real nas próprias redes”, frisa o MPF na ação.
Entre os “influenciadores digitais do garimpo”, há os que usam linguagem mais ostensiva e irônica, com frases como “Bora pro garimpo a grama do ouro já tá quase chegando os mil reais”, ou “Medo do Ibama o quê, eu quero saber é do ouro que tá debaixo da terra”.
Outras que fazem o estilo de influenciadoras tradicionais: “Minha rotina de trabalho aqui no garimpo.
Sempre tem algo para fazer, seja no mercado, na cantina ou na loja.
Aqui o corre é constante e ninguém fica parado! Quem já imaginava que era assim?”, escreveu, em seu vídeo, a dona de um dos perfis.
Algumas pessoas identificadas respondem, agora, a outras ações penais.
O processo contra a Meta pede a criação de formas de identificação e remoção dessas publicações.
Durante o inquérito que levou ao processo, a Meta removia conteúdos a pedido do MPF.
Mas o procurador aponta a necessidade de um mecanismo preventivo permanente.
A Justiça rejeitou a liminar para que a Meta indicasse um plano de intenção e colocasse avisos sobre proibição desse tipo de conteúdo, e o procurador recorreu.
A Meta informou que não vai comentar a ação.
Monumento ao garimpo
A banalização nas redes se explica por um “forte elemento cultural” típico da Amazônia, onde o garimpo foi incentivado por décadas, especialmente na ditadura militar, como forma de ocupar a região, analisa o procurador.
No centro de Boa Vista, há o Monumento ao Garimpeiro, considerado símbolo da identidade e do desenvolvimento econômico de Roraima.
Muitas publicações trazem a afirmação “garimpeiro não é bandido, e sim trabalhador”, apoiada por políticos que tentam legalizar a atividade.
— Eles não se veem como criminosos, mas pessoas que exercem uma atividade que o Estado deveria autorizar.
Esse elemento cultural é o mais difícil, porque você não muda a cabeça das pessoas de um dia para o outro — adverte Porreca, que acrescenta o ceticismo sobre os riscos do mercúrio, comprovados por estudos.
— É impressionante como não acreditam, um negacionismo incrível.
O procurador alerta que o garimpo está associado às facções criminosas na Amazônia, principalmente no compartilhamento da estrutura logística.
A aproximação se concretizou na contratação de criminosos como seguranças, no achaque, nas cobranças de taxas e na lavagem de dinheiro.
Com essas parcerias, os mesmos barcos e aviões são usados para transportar drogas, armas e máquinas do garimpo.
— Enfrentar o garimpo ilegal é enfrentar todos os crimes que o rondam, como o tráfico de mercúrio e o de armas e a lavagem de dinheiro.
Todos os garimpos hoje têm armas de alto calibre.
É uma constelação de crimes envolvidos, mas muitas vezes não existe essa percepção — afirma o procurador.
O Ibama também acompanha a comunidade virtual do garimpo, o que já ajudou na apreensão de equipamentos e aeronaves.
Mas a hiperconexão dificulta as operações no campo.
— Quando o Ibama chega ao município, já disparam o alerta para os garimpeiros — afirma Mateus Fumes, coordenador de Fiscalização da Flora do Ibama.
— Os grupos de olheiros são uma cultura antiga, mas há duas décadas era telefone e conversa de boteco, mais lento e menos efetivo.
Depois mudou, com as redes sociais e a popularização do 3G.
Nos últimos três anos, a presença de Starlink radicalizou isso.
Enquanto se propaga o discurso de defesa da extração de ouro, o Ibama vira alvo.
Em 2024, após a morte de um garimpeiro que abriu fogo contra agentes, houve uma manifestação grande e agressiva nas ruas de Itaituba (PA).
— É uma guerra cultural que a gente enfrenta — diz Fumes, que reforça que o crime ambiental é um carro-chefe do crime organizado na Amazônia.
Presidente do Ibama, Jair Schmitt cita estimativas que apontam a presença de até 200 mil pessoas no garimpo ilegal.
No período eleitoral, diz, o movimento pró-garimpo mobiliza agendas políticas e dificulta as repressões:
— Essa falsa vitimização do garimpeiro é um ponto essencial.
Não é a condição socioeconômica que legitima cometer crimes que prejudicam não só o meio ambiente, mas outras pessoas.
Tipos de conteúdo nas redes do garimpo
Recrutamento: O anúncio de vagas mira principalmente trabalhadores subalternos, como operadores de mangueira, motores e auxiliar de serviços gerais.
Vagas para pilotos, seguranças e cozinheiras também aparecem.
Venda de equipamentos: Há anúncios de diversos produtos e equipamentos usados no garimpo, como mercúrio, escavadeiras, motores e dragas.
Também há posts que ensinam a fazer produtos para extrair metais
Monitoramento de fiscais: Alertas da presença de fiscais do Ibama ou de equipes policiais são enviados em tempo real para garimpos de uma mesma região.
Garimpo ostentação: Em linguagem de influenciadores digitais, perfis pessoais e páginas maiores divulgam ganhos financeiros irreais, de até R$ 2 mil por dia, e exibem dinheiro e ouro.
Discurso político: Garimpeiros usam o discurso de que são “trabalhadores e não bandidos” e mobilizam políticos para legalizar a atividade.
Redes do garimpo ilegal têm de vendas de máquinas a alertas de ações do Ibama e ostentação de 'blogueiros'
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