A reabertura, em junho passado, do tradicional hotel Delano, em Miami Beach, voltou a chamar a atenção para um estilo que nunca sai de moda no sul da Flórida, e que chegou à região após um desastre natural ocorrido cem anos atrás.
O cinco estrelas ocupa um dos prédios Art Déco mais célebres de South Beach, bairro onde esta escola arquitetônica se transformou em cartão-postal e inspira roteiros temáticos até hoje.
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Miami Beach tem aquele que é considerado o maior e mais bem preservado conjunto arquitetônico Art Déco no mundo, com cerca de 800 construções ligadas ao estilo.
Protegido pelo órgão americano de patrimônio histórico desde 1979, o Art Déco District de South Beach é um “museu vivo do design do século XX”, de acordo com Sierra Manno, gerente de operações da Miami Design Preservation League, organização que cuida do Art Deco Welcome Center, um centro de visitantes onde é possível conhecer mais a fundo a história deste estilo tanto através de exposições quanto em passeios guiados.
A entidade também organiza eventos especiais durante a Art Déco Week, sempre no mês de janeiro.
A vida pós-furacão
A sede do grupamento de salva-vidas de South Beach é um dos exemplares mais conhecidos do estilo Art Déco em Miami Beach, na Flórida
Eduardo Maia/O Globo
Uma das primeiras coisas que o visitante aprende é que, em setembro de 1926, o chamado Grande Furacão de Miami varreu o sul da Flórida e destruiu boa parte da Grande Miami.
A reconstrução que se deu nos anos seguintes foi baseada num estilo que havia sido apresentado ao mundo durante Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925, em Paris.
Representado por ícones como os arranha-céus nova-iorquinos Chrysler Building e Empire State e o carioquíssimo Cristo Redentor, o Art Déco se espalhou pelo mundo nos anos 1930, 40 e 50 como símbolo de modernidade do início do século XX, valorizando formas geométricas, fachadas simétricas e detalhes decorativos mais objetivos.
— Além de uma escolha estética, o Art Déco em Miami Beach é o alicerce da própria identidade da cidade, já que marca o período em que ela se reergueu após a devastação de 1926.
Ao adotar o estilo, a cidade se posicionou como um destino moderno, glamoroso e vibrante — conta Sierra.
Na região de Miami pós-furacão, o estilo encontrou campo aberto para crescer e terreno fértil para ganhar novas características, bem mais tropicais do que as presentes em Paris e Nova York, por exemplo.
— O grande diferencial de Miami é o nascimento do chamado “Tropical Déco”.
Enquanto o Art Déco em outras cidades focava frequentemente em materiais como cromo e mármore, com uma estética mais austera, o estilo de Miami é lúdico e náutico — explica Sierra.
— Os arquitetos da época entenderam que o estilo precisava dialogar com o clima quente e a atmosfera costeira.
Em vez de restringir a arquitetura a materiais rígidos, eles incorporaram uma paleta de cores pastel: tons de rosa, azul, roxo, verde e amarelo que refletem a luz solar tropical.
Prédios cartões-postais
Em South Beach, na cidade de Miami Beach, até o posto de correios funciona num prédio típico do Art Déco
Eduardo Maia/O Globo
Para ver com os próprios olhos esse tal “Tropical Déco”, basta percorrer as principais avenidas do bairro.
O Art Déco District em si ocupa um punhado de quarteirões entre as ruas 5 e 23 (sentido sul-norte), e Ocean Drive e Lenox Avenue (leste-oeste).
Mas os principais exemplares estão mesmo concentrados ao longo da Ocean Drive, que corre à beira-mar, e suas paralelas imediatas, as avenidas Collins e Washington, onde também se concentram boa parte do comércio e vida gastronômica.
Na Ocean Drive estão os prédios que viraram cartões-postais da cidade, como os que abrigam os hotéis Colony, Breakwater South Beach, McAlpin e The Carlyle — este, famoso por aparecer em produções como “Miami Vice” e “Gaiola das loucas”.
Em geral, são prédios mais baixos, de no máximo seis andares, e que chamam a atenção por suas linhas simétricas e cores mais alegres (reforçadas pele iluminação noturna).
Fachada do The Bass Museum of Art, outro prédio importante do Art Déco District de South Beach, em Miami Beach
Eduardo Maia/O Globo
O estilo está presente também nos famosos postos dos guardas salva-vida espalhados pela praia, que se tornaram símbolos da cidade, e no antigo posto de comando da corporação, na altura da 10th Street.
Ali também fica o Art Déco Welcome Center.
Já pelas avenidas Collins e Washington, é possível ver o Art Déco resistindo em prédios usados para diferentes finalidades, como lojas de roupas, farmácias, restaurantes e até um belo posto dos correios, na altura da 13th Street.
Outras joias do estilo estão na Lincoln Road, a rua de pedestres repleta de lojas e restaurantes.
São dois antigos cinemas: o Colony Theatre, que ainda exibe filmes, e o Lincoln Theater, que atualmente abriga uma unidade da H&M.
Vale caminhar um pouco mais até o Collins Park, onde fica o The Bass, museu dedicado à arte moderna e contemporânea.
Hotéis renovados
Torre do hotel Delano, que reabriu ao público após seis anos em reforma: prédio é um dos mais conhecidos exemplares de Art Déco em Miami Beach
Eduardo Maia/O Globo
No trecho mais ao norte da Collins Avenue estão os maiores e mais sofisticados hotéis de South Beach.
É o caso do Delano, hotel que abriu as portas pela primeira vez em 1947 e, desde então, se tornou uma referência na região, com sua torre, com desenho bem particular, que pode ser vista ao longe.
Após uma reforma completa, que levou seis anos e custou US$ 100 milhões, o hotel reabriu com 171 habitações, com destaque para as duas suítes que ocupam a toda a cobertura, no 14º andar, com vistas privilegiadas para a cidade e para o mar.
Outra opção para quem quer uma imersão no South Beach style é o The Shelborne by Proper.
Este hotel butique também passou por uma reforma recente, que preservou a combinação dos estilos originais de Art Déco e Miami Modern (ou MiMo), típica dos anos 1950, presentes na fachada e na charmosa piscina.
Mas acrescentou elementos mais contemporâneos nos 251 quartos, na recepção e no elegante bar do lobby.
A charmosa piscina no estilo anos 1950 é um dos destaques do hotel The Shelborne by Proper, em Miami Beach
Eduardo Maia/O Globo
Andando pela Collins Avenue, é possível ver obras de renovação em outros ícones do Art Déco, como os hotéis Nautilus e Raleigh, o que mostra que a moda deste estilo realmente está longe de passar.
Eduardo Maia viajou a convite da Norwegian Cruise Line
Roteiro inspirado pelo Art Déco mostra por que estilo nunca sai de moda em Miami Beach
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