O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que concorre à reeleição, minimizou o fato de partidos do Centrão, de sua base de apoio, ficarem neutros na disputa presidencial e não apoiarem a candidatura do presidencial Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Na avaliação de Tarcísio, as legendas priorizaram a eleição para a Câmara dos Deputados, com a ampliação da bancada federal.
Ele participa nesta quinta-feira (20) de sabatina promovida pelo Valor em parceria com O Globo e a rádio CBN.
A entrevista, com duração de 1h30, é conduzida pelos jornalistas Guilherme Muniz, âncora da CBN, Vera Magalhães, colunista de O Globo, e Marcello Corrêa, editor de Política do Valor.
Na disputa pela reeleição, Tarcísio tem o apoio de 12 partidos políticos, e algumas legendas como União Brasil, Republicanos e PP se declararam neutros na disputa presidencial.
Ao ser questionado sobre o motivo desses partidos não apoiarem Flávio, seu aliado político, o governador afirmou que “o foco desses partidos é fazer bancada”.
“Então cada partido está privilegiando as bancadas.
Quando faz opção pela neutralidade, faz opção pela bancada”, afirmou Tarcísio, citando que diretórios desses partidos apoiam o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva na região Nordeste, e na região Sudeste, apoiam Flávio.
“A bancada tem sido a prioridade dos partidos.
Talvez esteja na hora de a gente discutir reforma política”, disse.
“Esses partidos estão com Flávio em São Paulo.
No plano nacional teve pragmatismo para fazer campanha.”
Fim da reeleição
Tarcísio se referiu à reforma política como uma "reforma-mãe".
Dentro dessa discussão, disse, estaria o fim da reeleição para promover a alternância de poder, além de melhorar a representação e o voto distrital, com o intuito de “promover adesão maior da política com a sociedade, com o sentimento dominante”.
“A gente precisa criar mecanismos e regulamentar algumas coisas que tornem o setor produtivo, as forças vivas, os formadores de opinião mais próximos da decisão, porque, de certa forma, hoje há uma independência muito grande com os mecanismos que se criaram com o sentimento da sociedade”, disse.
Ele também afirmou que o gesto de Flávio Bolsonarode assinar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo fim da reeleição não sinaliza um caminho aberto para ele concorrer à Presidência em 2030, “mas sinaliza para todo o grupo”.
“Não dá para pensar agora em 2030, está muito distante e tem muita água para rolar.
A gente tem que antes superar 2026, ver como vai ficar o cenário e muita coisa pode acontecer.
Ganhando eleição aqui, a gente tem um mandato para fazer e tem resultados que precisam ser apresentados”, declarou.
Na visão de Tarcísio, o pleito de 2030 “não pode estar na cabeça em hipótese nenhuma agora”.
Reforma tributária
Na sabatina, Tarcísio também disse o Estado se beneficia da reforma tributária e voltou a defender a medida, mas fez ponderações sobre como será o conselho gestor.
“A reforma está envolta em muitas incertezas.”
Tarcísio disse ter assumido uma postura diferente do que governadores de São Paulo que o antecederam, como Geraldo Alckmin e José Serra, tiveram em relação à reforma tributária, ao apoiar a medida, e ressaltou os benefícios da reforma para o Estado.
“São Paulo foi favorável à reforma, diferente do [papel] que o Estado teve em outras ocasiões, do que Alckmin teve quando foi governador, quando Serra foi governador”, afirmou, na sabatina.
“São Paulo é o maior originador da carga, mas também o maior mercado consumidor.
A tributação no destino pode nos beneficiar.
São Paulo é beneficiado com a reforma tributária.
E há uma demanda antiga do mercado por simplificação”, disse o governador.
Segundo Tarcísio, “a grande questão que se coloca é como será a coexistência dos dois sistemas e como o conselho gestor vai funcionar”.
“O conselho gestor tem que ser instância que faz as coisas acontecer e não um novo Confaz.
E o terceiro ponto é a alíquota, para não ter o risco de ter o maior IVA do mundo.”, disse.
Privatização da Sabesp
Tarcísio também defendeu, na sabatina, a privatização da Sabesp, realizada durante seu mandato, e minimizou o aumento das reclamações contra a empresa, sobretudo em relação ao aumento da tarifa.
Segundo ele, as críticas estão relacionadas com a troca do hidrômetro nas residências.
“Se pegar e abrir as reclamações, a maioria tem a ver com tarifa, cobrança indevida.
Uma parcela pequena está relacionada com a prestação de serviços”, disse Tarcísio.
“Outra reclamação foi a troca de hidrômetro, que fez explodir as reclamações sobre tarifa.
As reclamações têm muito a ver com a troca de hidrômetro para o digital”, reiterou.
“A empresa parou, vai fazer o ajuste, vai melhorar o canal de comunicação com o cliente.”
Ao defender a privatização da empresa, o governador disse que após a desestatização aumentaram os investimentos em saneamento no Estado.
Questionado sobre os problemas registrados em concessões no transporte público, Tarcísio afirmou que o governo está revendo “protocolos” e disse que a atração de empresas estrangeiras para investir nessa área em São Paulo não tem sido fácil.
“A gente começou a analisar o mercado e tinha expectativa de trazer muitas empresas e operadoras para cá.
Estamos vendo que é muito difícil.
E não podemos deixar o sistema nas mãos de um ou dois operadores”, disse.
Tarcísio afirmou que o governo decidiu passar linhas da CPTM para a iniciativa privada para “mobilizar investimento em um prazo mais curto” e que há uma deterioração das linhas de trem.
“CPTM era uma estatal dependente.
Ao longo do tempo vimos uma deterioração das linhas.”
Segurança pública
Ao falar sobre segurança pública, Tarcísio disse que houve redução de alguns crimes como latrocínio e homicídio, o que, segundo ele, indica que o governo “está indo numa direção certa” e “deixando o Estado mais seguro”, apesar de sensação de segurança demorar para vir.
O governador também mencionou que quando defendeu o padrão de Bukele, de El Salvador, é no sentido de falar da “atitude que o Estado tem que ter de enfretamento ao crime”.
“Se o Estado quer resolver um problema, ele resolve um problema”, afirmou, citando as ações de enfrentamento adotadas pelo governo na Cracolândia.
Tarcísio também voltou a defender o uso de câmeras corporais e que irá manter o acionamento remoto, além de investir em inteligência para combater o crime organizado.
Segundo o candidato, hoje há o acionamento remoto das câmeras, o que diminui a possibilidade de alegação de falta de bateria ou que ela estava desligada.
Ele disse ainda que não quer abusos e excessos em abordagens policiais, mas que é preciso “adesão irrestrita aos procedimentos”.
Segundo ele, a letalidade policial em São Paulo, apesar de ter crescido em números absolutos, é menor quando comparado a outros países e Estados brasileiros.
“A gente não quer abuso ou excesso em hipótese alguma.
A gente tem batido muito nas escolas de formação a adesão forte aos procedimentos.
Quando a gente compara a letalidade policial de São Paulo com outros países, está abaixo de alguns países em relação a quantidade de abordagens que são feitas”, afirmou Tarcísio, citando Goiás, Bahia e Ceará.
Segundo Tarcísio, a Polícia de São Paulo recebe 20 milhões de chamados por ano, sendo 60 mil por dia.
Desse total, 35 mil viram ocorrências, por isso os números de letalidade são altos.
“Tem uma quantidade enorme de demandas e solicitações.
Uma parte dessas demandas acabam tendo confronto na hora que os policiais vão fazer esse enfrentamento e infelizmente acaba tendo a questão da letalidade que a gente não quer”, completou.
