Até alguns anos atrás, Lucas Grigolato só sabia que a Holanda tinha uma rainha nascida na Argentina.
Ele nunca tinha ouvido falar de Eindhoven.
No entanto, uma oferta de emprego que recebeu pelo LinkedIn mudou o rumo de sua carreira: em novembro de 2022, ele deixou Rosário, na Argentina, com sua companheira e desembarcou nessa cidade de cerca de 250 mil habitantes, que hoje ocupa uma posição estratégica na competição tecnológica global.
— Eu nem sabia que Eindhoven existia — recorda.
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Ao chegar, começou a descobrir que era o coração do Brainport, um ecossistema onde nasceram empresas que hoje definem os rumos da indústria global de semicondutores.
Se o Vale do Silício se tornou o símbolo da revolução do software, Eindhoven o fez com o hardware mais sofisticado do planeta.
Máquinas capazes de fabricar os chips mais avançados do mundo são projetadas lá; alguns dos principais laboratórios de engenharia da Europa operam na cidade; e pesquisadores, startups e fornecedores especializados coexistem.
A inovação deixou de ser apenas uma atividade e se tornou o principal motor econômico da região.
O Brainport reúne mais de 6 mil empresas de tecnologia, cerca de 73 mil profissionais de engenharia e tecnologia, e gera cerca de 12,3% das exportações dos Países Baixos, enquanto 2% de todos os pedidos de patentes em todo o mundo provêm desta região.
Em 1891, a família Philips escolheu Eindhoven para instalar uma pequena fábrica de lâmpadas incandescentes.
Ao longo das décadas, a empresa investiu cada vez mais em pesquisa e desenvolvimento, tornando-se, eventualmente, um dos principais laboratórios industriais da Europa.
— Eindhoven se tornou um polo tecnológico graças à fundação da Philips em 1891 — resume Grigolato.
— Com o tempo, a empresa investiu em pesquisa e, a partir disso, surgiram algumas das empresas de tecnologia mais importantes do mundo, como ASML, NXP e Signify.
Hoje, o emblema dessa transformação é a ASML.
Com sede na vizinha Veldhoven, a empresa é a única no mundo capaz de fabricar as máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV) usadas por gigantes como TSMC, Samsung e Intel para produzir os microprocessadores mais avançados do planeta.
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Seu crescimento é tão crucial para a economia holandesa que o governo lançou programas multimilionários de infraestrutura, habitação e transporte para apoiar a expansão da Brainport e impedir que a empresa transfira parte de suas operações para o exterior.
— Grande parte da atividade econômica da cidade gira em torno da ASML, mas existem outras indústrias independentes — explica Guido Stefanuto, engenheiro mecânico formado pelo Instituto Balseiro, que chegou em 2016 para concluir um programa de especialização na Universidade de Tecnologia de Eindhoven.
Ele destaca que a cidade realiza “muita pesquisa aplicada e oferece empregos na vanguarda do desenvolvimento tecnológico”.
A trajetória deles reflete uma característica comum a muitos argentinos que chegam a Brainport: a maioria vem a convite de uma empresa, universidade ou laboratório.
E descobrem que por trás dessa oportunidade existe uma rede industrial construída ao longo de anos.
Silvina Gutiérrez vivenciou isso em primeira mão após deixar a Invap, onde estava envolvida no projeto do satélite SABIA-Mar.
Seu destino foi Eindhoven, motivada por uma oportunidade profissional que lhe permitiu continuar trabalhando em engenharia eletrônica de alta complexidade:
— Eu queria continuar crescendo e enfrentar novos desafios.
A oportunidade me permitiu dar continuidade ao meu desenvolvimento profissional e fazer parte de um ecossistema internacional de inovação.
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A história de Lucila Agustinelli é diferente porque ela não chegou recrutada por uma empresa de tecnologia, mas sim acompanhando seu parceiro, Grigolato.
Cinesiologista de formação, ela precisava aprender holandês e obter uma licença oficial para exercer a profissão.
Enquanto estudava o idioma, encontrou trabalho em uma loja de lingerie, algo que, segundo ela, foi possível graças ao caráter internacional da cidade.
— Isso me permitiu me integrar rapidamente e, ao mesmo tempo, começar a aprender o idioma — observa.
Essa abertura é uma das características que definem a Brainport.
Em suas empresas, laboratórios e campus tecnológicos, profissionais de mais de cem nacionalidades trabalham juntos, e o inglês é o idioma do dia a dia.
Tensões de crescimento
Se a Philips foi a semente, a ASML completou a transformação de Eindhoven em um ator estratégico na economia global.
Cada vez que uma empresa como Apple, Nvidia, AMD ou Qualcomm apresenta um processador mais poderoso, por trás dele está uma tecnologia que muito provavelmente começou a tomar forma a poucos quilômetros do centro desta cidade holandesa.
Os moradores insistem que o verdadeiro diferencial não é uma única empresa, mas a rede que a cerca.
— A região me permite trabalhar ao lado de alguns dos profissionais mais qualificados do mundo e conectar-me com empresas de tecnologia líderes — diz Grigolato.
Ele foi contratado pela consultoria TMC e atualmente trabalha em um projeto para a Ericsson, outra gigante global das telecomunicações: — Atualmente, estou trabalhando em um projeto da Ericsson, algo que eu jamais imaginaria há quatro anos.
O primeiro celular da minha família foi um Ericsson, e agora trabalho com as mesmas pessoas que desenvolveram alguns de seus componentes.
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Esse tipo de trajetória profissional é comum na Brainport.
Engenheiros migram de uma startup para um centro de pesquisa; especialistas trabalham para uma consultoria e desenvolvem projetos para diversas multinacionais; pesquisadores universitários acabam criando suas próprias empresas.
A mobilidade entre empresas, universidades e laboratórios faz parte do modelo.
A Universidade de Tecnologia de Eindhoven (TU/e) ocupa um lugar central nesse sistema.
Ela funciona não apenas como um centro de formação acadêmica, mas também como uma fonte constante de conhecimento para a indústria.
Incubadoras de empresas, centros de pesquisa aplicada e programas de inovação aberta surgiram ao seu redor, fomentando um ciclo virtuoso entre ciência e produção.
Stefanuto vivenciou o modelo por dentro:
— Escolhi a cidade unicamente porque a universidade oferecia um programa que me interessava muito — explica.
— A cidade realiza muita pesquisa aplicada e oferece empregos na vanguarda do desenvolvimento tecnológico.
A diferença em relação a outros polos tecnológicos reside também na sua especialização.
Brainport construiu a sua identidade em torno da engenharia de precisão, mecatrônica, fotônica, eletrônica e semicondutores.
Isso explica por que tantos profissionais argentinos de instituições como o Instituto Balseiro ou o Invap encontram ali um mercado de trabalho particularmente receptivo.
Antes de emigrar, Gutiérrez trabalhava em um dos projetos espaciais mais importantes da Argentina, na Invap.
— Senti que havia chegado a um ponto da minha carreira em que queria continuar crescendo e enfrentar novos desafios — diz ele.
— A oportunidade de trabalhar em Eindhoven me permitiu fazer parte de um ecossistema de inovação de classe mundial.
Para perfis como o dela, o atrativo da Brainport não se resume apenas a salários ou estabilidade econômica: a possibilidade de participar de projetos-chave para o rumo tecnológico global tem um peso significativo.
Em uma região com abundantes oportunidades de emprego para engenheiros, o principal obstáculo é encontrar moradia.
Grigolato resume a situação:
— O problema não é encontrar emprego; o problema é encontrar moradia.
A pressão sobre o mercado imobiliário é uma consequência direta do crescimento.
Milhares de profissionais estão chegando, atraídos por empresas de tecnologia, enquanto a construção de novas moradias avança em ritmo insuficiente.
Um apartamento de um quarto custa atualmente entre € 1.300 e € 1.600 por mês (cerca de R$ 7,8 mil a R$ 9,6 mil, na cotação atual), enquanto um apartamento de dois quartos pode ultrapassar € 2 mil (cerca de R$ 12 mil, na cotação atual), segundo fontes e os principais portais imobiliários da região.
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Mas o preço não é o único obstáculo.
Agustinelli lembra que alugar uma casa quase envolve passar por um processo de seleção:
— Você tem que ficar de olho nos anúncios dia e noite.
Se conseguir agendar uma visita, já é uma conquista.
Depois, você envia uma carta explicando quem você é, de onde você vem e por que quer alugar aquela casa.
Por fim, o proprietário escolhe entre todos os candidatos.
Além disso, existem requisitos rigorosos: comprovar renda equivalente a três vezes o valor do aluguel, apresentar contratos de trabalho estáveis e fornecer um depósito equivalente a dois ou três meses de aluguel.
Stefanuto teve a mesma experiência:
— Da última vez que mudei de casa alugada, levei três semanas procurando novos imóveis todos os dias e competindo com outras pessoas — ele relembra.
O governo holandês e grandes empresas começaram a intervir para evitar que o problema afete a competitividade de Brainport.
Algumas empresas já estão oferecendo acomodações temporárias ou serviços de realocação para facilitar a chegada de talentos internacionais.
O preço da oportunidade
A maioria dos profissionais não pertencentes à UE chega com um visto de Migrante Altamente Qualificado, um programa criado para atrair trabalhadores altamente qualificados.
As empresas patrocinam a autorização de residência e, em muitos casos, também ajudam a encontrar alojamento durante as primeiras semanas, um processo que se tornou uma grande preocupação para quem chega à região.
— As empresas que desejam contratar pessoas de fora do país precisam estar registradas no governo e atender a uma série de requisitos — destaca Agustinelli.
No caso dela, enquanto seu parceiro começou a trabalhar como engenheiro de telecomunicações, ela teve que se reinventar.
Além do aluguel, que representa a principal despesa, existem o seguro médico obrigatório, impostos municipais, energia, transporte e serviços que, em comparação com outras partes da Europa, podem ser mais caros.
— Comer fora custa entre 30 e 50 euros por pessoa (cerca de R$ 180 a R$ 300, na cotação atual), e contratar qualquer serviço é caro.
A maioria das pessoas acaba fazendo os reparos, a limpeza ou a manutenção da casa por conta própria — diz Stefanuto.
Grigolato e Agustinelli estimam que um casal precisa de cerca de 5 mil euros por mês para viver confortavelmente, enquanto uma pessoa solteira necessita de pelo menos 3 mil euros se pretender alugar um imóvel sem partilhar a habitação e manter um nível de vida confortável.
Ao mesmo tempo, ambos destacam uma diferença que acabou sendo decisiva para eles.
Poucos anos depois de se estabelecerem lá, conseguiram um financiamento imobiliário e compraram uma casa em Helmond, a poucos quilômetros de Eindhoven.
Um cenário que jamais haviam imaginado enquanto moravam em Rosário.
— Ficamos surpresos ao descobrir que um financiamento imobiliário podia cobrir 100% do valor de um imóvel.
Na Argentina, o crédito imobiliário era praticamente inexistente quando saímos de lá.
Nunca imaginamos que três anos depois estaríamos comprando uma casa — diz ela.
Essa perspectiva de estabilidade surge como um dos aspectos mais valorizados por aqueles que emigraram.
Não se trata apenas de melhores salários, mas sim de planejamento.
— A oportunidade me permitiu continuar crescendo profissionalmente, mas também desenvolver minha carreira em um ambiente onde a inovação faz parte do dia a dia — resume Gutiérrez.
Os quatro argentinos concordam que emigrar também envolve alguns sacrifícios.
— Um dia aqui é um dia longe de muitas pessoas que amo — admite Grigolato.
— Mas também aprendemos a valorizar outras culturas e a descobrir diferentes modos de vida.
Agustinelli enfatiza que eles “nunca” vivenciaram “um episódio de xenofobia":
— Pelo contrário.
Achamos que os argentinos têm uma imagem muito boa.
Nos deixou muito bem na imagem.
A cidade europeia que virou polo da tecnologia mundial — e quase ninguém conhece
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